There was an error in this gadget

Monday, 30 January 2017

Trampa de Ditaduras



É com certo cinismo que olho um boa parte das pessoas indignadas com Donald Trump.

Refiro-me àquelas pessoas reacionárias, algumas benévolas, secreta ou abertamente saudosistas dos tempo da velha senhora. Falo dos simpatizantes de Salazar ou Franco que minimizam a malvadez do fascismo, de partidos extrema de direita, movimentos populistas e grupos neo-nazis, como se, por algum motivo insondável, estes fossem menos perigosos, sinistros e perversos que as brigadas vermelhas, os partidos e ditaduras comunistas, como a soviética, a chinesa ou a cubana... Cheira-me que aquelas pessoas pensam ou pensavam assim, porque o fascismo nunca afectou o seu bem-estar, nem lhes retirou privilégios, nunca as perseguiu e, se tratou alguém imerecidamente, eles não deram por nada... A extrema direita não os ameaça; nutriam a esperança de que ela nunca fizesse mal ao lado em que se achavam... Tais reacionários, chamam “grandes homens” a Salazar, Franco ou Pinochet, sob o pretexto de que, para fazer “grandes obras”, era preciso sacrificar muita gente.

Pois esses saudosistas dos tempos da velha senhora que agora muito se escandalizam com Trump, lembram os alemães que, antes da Segunda Guerra, elegeram Hitler mas que depois, néscios ou afectando inocência, se espantaram, com o monstro que tinham no poder e com as consequências apocalípticas da sua acção!

Esses reaccionários estão chocados com o boçal do Trump mas pensam afinal como ele, não reconhecem as semelhanças de Trump com a tacanhez de Salazar e Franco, com o grosseiro do Hitler e as bestas dos SS, nem com a brutalidade desalmada de Lenine ou Estaline. Essas pessoas, como Trump, confundem árabes com muçulmanos e todos eles com terroristas. Essas pessoas podem não ter participado nas eleições americanas mas nutriram a besta, alimentaram o espírito do tempo e ajudaram-no a subir ao poder.

O meu Pai dizia que todas as ditaduras eram más mas que o fascismo, assentando na economia aberta e de mercado, pelo menos, não se podia fechar e carregava assim consigo a semente da sua própria corrosão... Se esta lógica estava certa, Trump, com o o proteccionismo que defende, já nem essa semente carrega! Oxalá a economia liberal e os valores de liberdade e democracia tão queridos aos americanos, não pereçam e lhe furem o esquema!

Não, não há ditaduras de boa índole, ou melhores que outras. A ditadura começa onde acaba a tolerância, onde acaba a compaixão, a alma, o amor, onde termina a sensibilidade ao sofrimento, onde morre o coração.

As ditaduras sempre foram más, aterradoras! de direita, ou de esquerda, tanto faz!

F. Pedrosa Eidmann

Saturday, 17 December 2016

Sem Palavras

Estou quase muda.
Não tenho palavras, não acabo as frases de tanto estupor e tristeza, engolindo em seco...
Restam-me imagens vivas, à desfilada no pensamento.
Amiguinho de sempre, contigo, nunca foi preciso crescer!
Garoto de alma gigante, riso largo, voz rouca, olhos pândegos, a piscar.
Companheiro de paródias, passeios, pedaladas, risotas, chacotas, ceias, mergulhos e gelados.
Conversas e desconversas a desoras, a pasmar, a ouvir a ronca e as gaivotas, a ver as ondas, as traineiras e estrelas a cintilar no mar.
Ainda ontem falámos de ti, e eu a pensar que já era tempo de cá voltares... com tanto tempo sem te ver, vale a certeza dum sempre que faz uma amizade.
E afinal, apeaste-te sem dar por isso e juntaste-te aos bons, como tu, nesse solarengo infinito, esse céu espraiado que ultrapassa os anos, séculos e milénios.
Nesta viagem só de ida em que embarcaste, levas um bocadinho de mim.
Fica uma melancolia incomensurável, ficam estes laços invisíveis mas indeléveis, daqui até ao paraíso!



Tuesday, 12 January 2016

Morgengrauen - Amanhecer em Sol Menor




Com o roupão pingão e as pantufas felpudas, só me falta o gorro pendente na nuca e a vela na mão, para alumiar esta hora parda...
Tenho o olhar enevoado, os pensamentos ainda nem são, repousam nas mantas, pingam incertos, miúdos, como as gotas de orvalho na janela.

Não me falem, segredem-me e se for preciso!... Não estraguem esta brandura!

O cão poupado, bem sabe: apena pisca os olhos, estendido diante da vidraça do corredor. É deferente, tem vagar! Afinal, quanto menos alarido, maior a economia e a poesia! Quem diria... Dispensa-se mais filosofia.

Abro a janela, miro o Leste lusco-fusco, arejo o quarto com Janeiro. O céu cinzento é raiado dos ramos despidos da nogueira, as faias altaneiras talvez varram as nuvens.... Oxalá, não demais, não vá o sol radioso insultar a neblina!

O ar frio atravessa a roupa. Lá fora faz inverno, piam os corvos; se fosse na costa, eram gaivotas...

Sem grande destino, rojo os pezinhos de lã pelo crepúsculo da casa, sorvendo lentamente o café da chávena almoçadeira. Lá saio para o terraço, tiro a temperatura ao dia, trago um golo de vento, mirando uma rosa que floresce agora!

Recolho à brancura matinal da sala, onde ainda perdura, viçoso, o abeto tardiamente erguido; e fica. Em Janeiro, também é Natal!... Não enquanto os homens quiserem – sabe-se lá, quem eles são... – é Natal porque nestas manhãs – nossas - renascem laços ocultos e perpétuos que atravessam terras, oceanos, até aos confins do mundo!



__________________

Morgengrauen, em alemão, traduz-se por alvorada.... Literalmente, porém, quer dizer “cinzento matinal” e esta pequena diferença é essencial porque subtrai o sol português, compreensivelmente implícito na palavra “alvorada” e em todos os seus sinónimos (amanhecer, alba, alvor, etc.). Afinal, sem sol também há dia. A língua ideal é composta de muitos idiomas.


Tuesday, 8 December 2015

Maria, há muitas!


Maria, há muitas na terra!
Maria ícone, modelo,
Maria das imagens e quadros.
Maria estática, alva estátua,
De vestes diáfanas,
Inatingível num pedestal,
Na penumbra duma capela.,,
  
Pois a minha Maria, é outra!...
É pessoa de confiança,
Vem a casa!
Mora incógnita
Num monte aqui por cima!
Noite e dia, no breu, vento,
Chuva, frio e nevoeiro
Porto amigo,
Quase esquecido,
Um banco, a vela ao lado,
Sempre à espera...
  
É mulher valente, de fibra
Do presente,
Pessoa de corpo e alma
De carne e osso,
E sangue na guelra!
Tem cabelo grisalho,
E rosto marcado
Do pranto,
Coração que bate,
Por quem ama!
  
Maria é grande!
Acode e ampara,
Seus ombros latos,
Do que abraça,
As ancas largas,
E pés calejados,
De tanto que corre,
Caminha, e passa!
Maria das mãos nodosas
 É faz-tudo,
Não se furta a nada!
  
É Mãe de todos,
Sofre connosco,
Com olhos presentes,
Nobres, sossegados,
Que escutam,
Contemplam, hospedam
 E não culpam.
Maria é companhia
 Estende a mão amiga e forte,
Chama-nos a si e leva-nos com ela!
  
Maria-Coragem, é acrobata:
Quando a encontramos,
Tira-nos o fardo, as dores
Pega-nos ao colo,
E de alegria,
Numa pirueta
Atira-nos ao ar,
ao Céu, a Deus,
E recolhe-nos
Mansamente ao voltar!

Saturday, 28 November 2015

O Pois


O pois português, é difícil de traduzir… É uso traiçoeiro e apenas luso, que denuncia logo um português entre brasileiros... É que pois, ouve-se mesmo muito! Pode querer dizer muita coisa, é certo, mas no fim, não diz nada... O pois é útil: é polido, não contradiz, antes pelo contrário! Quem pois, é ambíguo, não se compromete. Afinal, o pois é só conversa...



Pior: o pois nem sequer é assentimento, é mero bocejo. É enfadonho, vago, desatento, indiferente, falta de consideração. Mais vale não dizer nada!



O pois é legítimo para dissimular rebeldia, perante pais e chefias autoritárias que não admitem ser contraditos.



O pois é fruto de insegurança. Quem diz pois, não quer dar parte de fraco... convence-se de que já sabia as verdades, ou mentiras que o outro acaba de lhe revelar, ou pregar, ou é-lhes indiferente... E até se convence de que o outro não deu conta da sua ignorância, e que apesar de português, desconhece este jogo tão popular.



O pois é sabichão. Quem pois, não se espanta, carece de curiosidade, nunca aprende, quer lá saber... O pois já sabe, é preguiça mental, letargia, não considera... Não adianta nada, é um beco sem saída. O pois é pois, antídoto da filosofia.



O uso do pois devia ser regulado, pois chega a ser abuso. O país padece, pois, de apatia geral!


Thursday, 16 April 2015

O Fado das Guitarradas

Ouvi hoje o Mark Knopfler a tocar e cantar o Sultans of Swing. 
Tanto se ouvia que nunca lhe prestara muita atenção. Foi refrescante! 
Não importa se é mainstream... É prova que não são precisos 15-20 min. de solos e choradeiras de guitarra (a fazer render o peixe, como diria o meu Pai…) para um músico mostrar que é bom guitarrista.
Se não me engano, Aristóteles dizia que uma obra de arte tem de ter proporção - foi das poucas coisas que retive da estética. Sempre apreciei música de ida e volta, até ao middle eight e regresso, daí a minha predilecção pelos Beatles e pelas melodias bem exploradas e bem acabadinhas, devidamente moduladas de McCartney – bem se vê que cantou num coro litúrgico!
Não sei se Sultans of Swing também tem 16 compassos mas não tem uma nota a mais – nem a menos. É excelência, perfeição, virtuosismo puro, fluência, soberania. 
Um bom músico não maça; um bom artista, músico, escritor, não precisa de se repetir. Lembrou-me o Hendrix, Little Wing.

Thursday, 26 March 2015

Haja Coração!




Nestas horas de estupor e consternação,
Ante tão inefável egoísmo,
Acometem-me revolta e indignação.
Porquê, não pergunto, pois não há razão!
Num soluço atordoado, escondo a cara nos punhos cerrados. Não!

Fica dor, amargura, ficam jovens esperanças derramadas, vidas ceifadas pelo caminho.
Sobra o pranto infindo da multidão que, entre as montanhas ermas, alvas e frias,
fita muda os céus, onde as estrelas esmoreceram.

Também eu digo, agora, que não sei onde o mundo vai parar!
Foi-se-lhe a alma...
É que costumava haver coração!
Era o pêndulo,
Ouvíamo-lo, regulava-nos o rumo,
Vencia obstáculos, lutas e montanhas.
Desfazia nós, segredava preces,
Era alento, amor e compaixão,
Baixo fundamental,
Dava a mão,
Fazia bem, sem olhar a quem
E brando, tomava sempre o partido
De quem sofria!


26.3.2015 – após desastre aéreo de German Wings